Não é hoje que ouvimos pelos quatro cantos, esquinas e bares desse nosso Brasil perguntas do tipo : O futebol do passado seria igual ao que é praticado atualmente? Os jogadores que marcaram época há trinta, quarenta, cinquenta anos, teriam o mesmo desempenho nos dias atuais?
Para tentar responder a essas perguntas, creio que seja preciso analisar esse esporte chamado futebol a partir, primeiramente, dos atletas que o praticam, de algumas variações conceituais e principais características.
Começando pelo mais importante, o jogador, é preciso antes de tudo identificaraquilo que está na gênese de sua formação como atleta. Um jogador de futebol profissional apresenta, via de regra, as seguintes características: Técnica, habilidade, força física, velocidade e mobilidade (capacidade de deslocamento pelo campo)
Nesse sentido encontramos os mais variados tipos de variações e combinações possíveis. Jogadores mais técnicos, como Zico, outros mais habilidosos, como Maradona, outros que se sobressaem por sua impressionante velocidade,como Euller (o filho do vento), outros pela força física, como o tetracampeão Mauro Silva, outros por sua incrível mobilidade, como Zidane (que desfilava em campo diga-se de passagem) e tantos e tantos outros, incluindo os citados, que reúnem duas, três, ou em alguns casos, todas essas características, e ainda, em casos muito excepcionais, todas juntas em altíssimo nível, como podemos ver agora o argentino Lionel Messi, que assombra o mundo com seu jogo fora de série.
É preciso também reconhecer que as características de um atleta profissional ganham mais importância de acordo com sua época, isso é um fato do qual não dá pra fugir. Há cinquenta anos, com sistemas defensivos menos rígidos , com esquemas de marcação menos evoluídos, com mais espaço para fazer a bola rolar no gramado, os jogadores não tinham tanta necessidade de desenvolver a força e a velocidade. Os que tinham muita habilidade, poderiam apenas sobreviver dela ou, no máximo, desenvolver melhor sua técnica, mas nem isso era uma imposição. Claro que um jogador técnico e habilidoso como Didi, sobressaía ao lado dos companheiros, mas isso lhe bastava.
Com o tempo, naturalmente as coisas foram mudando. O futebol não é estático, muito pelo contrário, é um esporte como qualquer outro e, como tal, é dinâmico, sofre interferências de todas as ordens e está em permanente processo de evolução (embora essa palavra possa ser questionada).
Aos poucos, os sistemas de marcação foram se aprimorando, com isso teve que se dar mais ênfase a capacidade física dos jogadores, não só os da parte defensiva, mas também os atacantes e os de armação no meio campo, pois cada vez mais os espaços que encontravam para criar suas belíssimas jogadas foram diminuindo. O aspecto físico entrava então de forma inexorável no dia a dia do futebol.
No futebol moderno as características ligadas ao condicionamento físico-mobilidade, força e velocidade - foram tomando destaque e se colocando em pé de igualdade com as velhas características ‘técnica’ e ‘habilidade’ , como uma imposição a sobrevivência do atleta profissional de futebol. Os jogadores, de trinta anos pra cá, foram gradativamente se vendo forçados a cuidar dessa parte como jamais ocorrera na história. Os que não se adaptaram foram naturalmente se apagando ou sumindo com o tempo. Trata-se de uma constatação. É só fazer um esforço de reportagem que a lista será longa..
Nos dias atuais não há espaço para o jogador somente habilidoso, ou mesmo somente técnico, ou mesmo para um que junte essas duas características. É necessário, eu diria até obrigatório, casar isso com algo ligado a parte física, força, velocidade e ou mobilidade. Podemos citar aqui inúmeros exemplos de sucesso e de fracasso pra ilustrar melhor essa equação. Vejamos alguns:
Ronaldo só foi Fenômeno pois conseguiu juntar sua excelente técnica e boa habilidade a uma velocidade e força impressionante!
Kaká, extremamente técnico teve que unir isso a velocidade e deslocamento pelo gramado pra jogar a bola que sempre jogou.
Rivaldo e Zidane, o supra sumo da técnica, não desenvolveram a velocidade, mas a mobilidade que tinham, a capacidade de girar pelo gramado e tocar inúmeras vezes na bola, fez deles jogadores brilhantes.
Cristiano Ronaldo é esse jogador sensacional, pois sua técnica extrema e habilidade incomum se combinam com arrancadas velozes em longa distância.
Lionel Messi, é esse jogador excepcional, fora de série, pois é o único que possui todos esses quesitos em altíssimo nível: Técnica apuradíssima, muita habilidade, velocidade incomparável, força pra aguentar as pancadas e muito deslocamento pra receber a bola e partir pro gol. Um gênio da atualidade.
Claro que muitas perguntas surgem, pois o assunto é complexo mesmo, principalmente por que envolve paixão, memória afetiva dos grandes times que vimos, etc.
Uma delas acho que é inevitável: E o que dizer de jogadores extremamente talentosos, como Paulo Henrique Ganso? De fato, Ganso é um jogador fantástico, tecnicamente, sua linhagem é do mais alto nível, mas eu digo sem medo de errar que se quiser se estabelecer como o grande craque que tem potencial pra ser no mundo do futebol, terá que buscar mais o jogo, se deslocar mais e ter mais rapidez na saída de bola. Sob pena de ser mais um jogador que tinha tudo pra ser muito mais do que acabou sendo, como exemplo máximo podemos citar o Alex (ex-Palmeiras).
Uma outra pergunta que talvez ocorra há muitos de nós é: Por que jogadores como Robinho e Ronaldinho Gaúcho não se estabeleceram como achávamos que aconteceria?
A resposta não é difícil. O caso do Alex, que citei acima, é diferente do de Ronaldinho Gaúcho , por exemplo; embora as circunstâncias que não fizeram nem um nem outro se estabelecer na elite do futebol mundial sejam praticamente as mesmas.
Alex é um jogador de técnica apurada, tem todos os fundamentos na ponta dos cascos, bom passe, excelente visão de jogo, passe por cima, por baixo e uma boa batida na bola na hora de concluir a gol.
Não é o caso de Ronaldinho Gaúcho. Esse jogador se assemelha muito mais a Robinho, ou a Denílson, por exemplo. Se no caso de Alex temos um jogador com técnica apuradíssima, no caso de RG temos um jogador de habilidade apuradíssima, mas de técnica apenas razoável para boa, nada de excepcional.
Jogadores super habilidosos (RG sem dúvida é o maior de todos) mas com deficiências técnicas não aprimoradas durante a carreira, fatalmente irão se destacar por um curtíssimo período de tempo; pois mais do que qualquer outro eles necessitam e muito da força, da velocidade, da explosão , do ímpeto de partir pra cima. Precisam jogar os 90 minutos quase que em um “estado de euforia” para poderem brilhar. Se fizerem isso, arrancarão aplausos de todas as plateias em todos os estádios. Mas quem aguenta jogar 20 anos de bola nesse ritmo?
Uma última pergunta que, acredito, seja a que mais povoa o nosso pensamento sempre essa discussão passado/presente vem a tona no futebol é a seguinte: Os craques do passado jogariam hoje em dia? Teria espaço no futebol moderno para jogadores como Pelé, Didi, Nilton Santos, Garrincha, Gérson, Di Stéfano, Puskas, etc? Monstros do futebol, que encantaram plateias pelos gramados do mundo afora, jogariam essa bola toda nos dias atuais?
Minha resposta é: Não tenho a menor dúvida que sim. Esses craques jogariam em qualquer tempo, até se inventassem uma pelada na Lua contra seresinhos de outro planeta, eles se destacariam. Mas uma coisa é certa, teriam que se adaptar ao tipo de jogo que é jogado hoje; o que afirmo sem medo de errar que fariam, levando em conta a principal característica de todos eles, que antecede até o primeiro toque que deram numa bola: a inteligência.
Por fim, peço licença para falar de um caso que considero excepcional. Na minha opinião, Pelé, por tudo que fez em campo, por tudo que ganhou, por tudo que representou e tb por preferência estilística é o jogador de futebol mais sensacional de todos os tempos. Pelé reunia em altíssimo nível os principais quesitos de um craque na sua época, fantástico em todos os fundamentos, com jogadas geniais da mais pura habilidade. Além de tudo, Pelé tinha muita força, um equilíbrio fora do comum, arrancadas espetaculares, e um raro poder de decisão.
Além do além de tudo, pois trata-se de um gênio que Deus fez nascer brasileiro, o futebol de Pelé era clássico, encantador, bonito de se ver. Pode ser até que surja alguém com mais bola que ele, como vemos Messi agora e seu futebol de outro planeta, ou mesmo que já tenho surgido alguém do mesmo patamar e nem sequer tenhamos dado conta, quando Zidane desfilou com sua arte pelos gramados, não importa, jamais haverá outro Rei do Futebol..O trono de Pelé é enterno.